Casa dos 30

19 novembro 2005

Sábado

O cano acabou por ceder. Há meses que ameaçava fluir pelo prédio inteiro e foi hoje. Estou de pijama, assim mesmo, daqueles do Ferrador, quando me aparece uma loira que pinta as raizes de preto, ar muito assustado, a tocar à porta. O puto anda desenfreado pela casa e o cão atrás dele. Abro a porta.

- O cano, puf. Está a cair água para o contador. O meu filho (ah! ah!, informações!) diz que só cá está segunda feira, mas estamos com medo. Como o senhor (aqui, sinceramente, não me consigo habituar. Isto do "senhor" é tramado. Que me tratasse por animal, por trafulha, agora isto do senhor...), como o senhor, dizia, é o administrador do condomínio (dass, pois sou, lembro-me de rajada), o que é que pode fazer para ajudar?

Nada. É óbvio. É sábado, cai um toró lá fora, a casa não é minha, aliás estou de saída do prédio, quero lá saber da loira, do filho, do contador. Mas como bom judaico-cristão, presto-me imediatamente a resolver a situação.

Sete horas depois, chega o único homem do prédio que realmente se preocupa com isto. São sete e tal. Tenho fome e um jantarito combinado. O martelo, lá em baixo, anda atrás do cano, a mãe do meu filho atrasou-se uma hora e meia para o vir buscar.

E ainda por cima levei com o Noddy o dia todo e acabaram-se os cigarros de mentol.

22 setembro 2005

Atalaia, Amora, Seixal

14 setembro 2005

Mas esta merda é o confessionário, a sala dos ex-votos, o "Diário de Marilú", ou que porra é esta?

Boca aberta para lhe remexer o tira-dentes. Coroas, chumbos e brocas. Os joelhos no Raio-X. Os sonhos em confusão...
Isto vai mal!

Longing II

A sede de uma espera, diria o Godinho, só se estanca na torrente.

11 setembro 2005

Longing

Há dias em que as palavras se atropelam pela garganta e pelos dedos e saltam qual cabritos traquinas, sem propósito algum. Diria que se sentem saudades, mas por muito singular que seja o vocábulo luso, parece mais apropriada a palavra inglesa. Longing. De quem está perto, e também de quem não se conhece.

Ter 31 anos é...

...ser desafiado para ir beber copos à noite com uns amigos e ser convidado para ir ver o Sporting-Benfica com outros amigos, no dia em que ainda outro (velho) amigo faz 30 anos e em que uma (antiga) banda de referência actua de borla num centro comercial... e, mesmo assim, ter de passar o sábado em casa a trabalhar.

01 setembro 2005

Soa-me

A que está aí qualquer coisa a dar para o esturro. Cheira-me a papel entortado. Preparo pauzinho para a engrenagem.

25 agosto 2005

Os amores de verão

Agora levam Clonix, porque os dentes dão cabo de um gajo, panadol porque já lá vai o tempo de deitar na relva e safarmo-nos de um pigarrear, pleumocil (ou qualquer coisa assim) para matar o bicho que anda nos brônquios, uns xanax para os malucos do costume, um spray frio para o joelho mitigado de um amigo, muitos gases de um outro que não aguenta a muda de água e, sim, um baile de verão, um festival, etc., etc., etc.

Caramba, parecemos uma tenda de campanha a veranear

05 agosto 2005

Copa

E depois de tanta estrada palmilhada, o viajante encontra quase por acaso uma árvore frondosa. O seu mapa é talvez velho, não previa ali um oásis de uma peça só. Admira-a de longe e apetece-lhe escalá-la, explorar a copa enganadoramente singela, mas densa. Adivinha livros imensos de seiva nos seus ramos mais secretos, livros que outro alguém, quiçá, folheia furtivo no remanso sombrio. O inverno morre nos ápices mais profundos, empurrado pelo ouro leve da brisa morna que torneia um por um os seus ramos e folhas e frutos e nós, devagar, tão devagar.
O viajante vislumbra ao longe os pomares viçosos.
E, no entanto, sente a tentação de ficar por ali.

03 agosto 2005

Hoy ceno contigo,

...hoy, revolucion!

(Ismael Serrano)