Casa dos 30

27 junho 2005

Sexofone

O sexo é como os telemóveis. Toda a gente tem um, mas o uso que se lhe dá varia.

Azar é ter um de anacrónica doutrina soviética, fiel aos planos quinquenais.
Só cumpre de 5 em 5 anos.

Mas nem tudo são desgraças.
Ao menos o telemóvel, americano, não desaponta.

26 junho 2005

Ter um brilhozinho nos olhos

Às vezes basta isso. Ter um brilhozinho nos olhos.

O Pleonasmo

Odeio as bebedeiras dos trintas. Passo a noite inteira a beber copinhos de whisky e quando chego ao fim ainda mantenho uma porcaria duma lucidez que devia ter desaparecido seis horas antes.
A única coisa que me diz que houve bebedeira é a fraca disposição do dia seguinte. Às vezes o tecto gira de manhã, graças a sei lá que magia, ou divindade. Outras, é só o estômago e o cansaço no peito que me dizem que bebi demais.
Não foi demais. Foi bom demais. Tenho que começar a beber umas coisas de qualidade mais duvidosa, ou a misturar plutónio na merda da beberagem, porque ficar bêbado e ainda assim sentir tudo, sem gritar, sem tropeçar, sem fazer riscos pelo corpo, sem perder os sentidos, sem desaparecer momentâneamente do mundo que seja, e recuperar todos os passos da noite para o dia seguinte, não é estar bêbado - é perder tempo a chorar para cima duma toalha ensopada de água e suor.
A toalha não se importa, que tudo lhe há-de cair ainda por cima até que saia o último conviva. Importa-me a mim, que queria servir-me dela para para secar os olhos às vezes, e outras, só para poisar a cabeça, devagar, bêbado, desaparecido, fugido de mim.
Como digo, até de estar perdido vou perdendo as qualidades.

E tomem lá o pleonasmo.

24 junho 2005

Direito de Resposta

A Inês respondeu ao electro correio de quarta feira. Reencontrá-la vai ser muito mais difícil: continua a não sei quantos mil quilómetros de distância, com um montão de água pelo meio, mais uns desertos, umas florestas e algumas cadeias montanhosas.
De qualquer forma, parece que está bem. Havemos de comunicar mais vezes.

23 junho 2005

Compasso

Ás vezes parece-me por mais que tente fazer as coisas direitinhas, o raio do compasso que me traça a linha desenha sempre algo em linha recta.

Isto é, o sacana do ID anda com 18 anos, o Superego é católico e o Ego está de baixa psiquiatrica há uns dois ou três anos.

22 junho 2005

Perguntas

Onde é que estará a Inês?
Há muito tempo que deixou de responder ao correio eléctrico. Parece que tinha uma ligação muito má, ou qualquer coisa assim. Depois a gente deixa de tentar comunicar, sei lá porquê.

21 junho 2005

Estamos naquela altura do mês

Em que é preciso pagar a renda, estamos sem cheta para jantar fora, precisamos renovar o stock de Guronsan, vamos rever os filmes da colecçãozinha particular e apetecia-nos afagar um bicho qualquer que não fosse o nosso canito.

Vamos pondo pedras sobre o assunto e não sai nenhuma pérola.

O Sonho do Outro

O sonho do vintage é safar-se nos trintage.

Cedo se percebe tudo, tarde se age

ADEUS

"Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes
E eu acreditava.
Acreditava.
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus."

Eugénio de Andrade


ÚLTIMA TENTAÇÃO

"E então ela quis tentá-lo definitivamente. Olhou bem em volta, com extrema atenção.
Mas só conseguiu encontrar uma pêra pequenina e pálida.
Ficaram os dois numa desesperante frustação.
Não há dúvida que o Paraíso está a tornar-se cada vez mais chato!"

Mário Henrique Leiria


ATRÁS DA PORTA

"Quando olhaste bem nos olhos meus
E o teu olhar era de adeus
Juro que não acreditei
Eu te estranhei
Me debrucei
Sobre teu corpo e duvidei
E me arrastei e te arranhei
E me agarrei nos teus cabelos
No teu peito
Teu pijama
Nos teus pés
Ao pé da cama
Sem carinho, sem coberta
No tapete atrás da porta
Reclamei baixinho

Dei pra maldizer o nosso lar
Pra sujar teu nome, te humilhar
E me vingar a qualquer preço
Te adorando pelo avesso
Pra mostrar que inda sou tua
Só pra provar que inda sou tua..."

Chico Buarque

20 junho 2005

Bons empregos

Amanhã mudam-me de sítio. Vou ficar entalado entre catatuas, galinholas, aves de arribação e toupeiras.

Mudarem-me de sítio faz-me confusão. Não por andar com a tralha atrás. Nos últimos três meses já me sentei em outros tantos lugares diferentes. Detesto a rotina. O que me irrita é serem "eles" a mandarem. Agora não quero sair daqui. Estou sossegadito, costas para a janela, vejo o sol e não firo os olhos, tenho aqui uma insinuante ao lado e uma contestatária lá ao fundo, vejo a porta e quem entra, à volta há espaço e privacidade.

Mas, pelo amor à produtividade ("ora ai está..."), vamos ficar todos juntinhos. Isto já anda tenso. Se nos obrigam a olhar uns para os outros, começamos aos berros. E vai-se pela vaga de fundo a pachorra.

Cheira-me a prolegómeno de verão triste.

A inércia

A inércia bem podia ser uma rapariga jeitosinha. Já tinhamos casado.

Na mesa da sala

Cápsula de uma garrafa de Jameson
Cinzero com beatas de cigaros Marbelo, Marlboro Menthol e LM
Bula do Xanax 0,5
Um copo com baixo caudal de chá
O comando da tv
Chaves
O primeiro caderno do Expresso, quase a cair
Meia bolacha Maria

A segunda-feira

Hoje quando chegar, munido da serra eléctrica, subo ao terceiro andar, corto o pescoço ao patrão. Depois, dou uma grande gargalhada e passo nos Recursos Hidricos para levantar um cheque de duzentos mil contos. Saio da empresa sob fortes aplausos,inclusivé da polícia e dos juizes, que consideram a minha atitude digna.

Um novo gestor, um motivador e cheio de justiça social, mas que conhece o mercado, toma conta da empresa para júbilo de todos.

Os contratos a prazo são renovados. Os recibos verdes passam para o quadro. A Marta finalmente repara como a minha barriguinha é estupidamente sexy e propõe-me um jantar logo à noite.

Meto-me no carro, levo o CD da (ou dos, sei lá eu) Feist, que a minha mulher me ofereceu pelos anos, e vou para uma praia totalmente relvada, com a água a 26 graus e o o ar a 25.

Esta é a segunda-feira ideal para uma madrugada de domingo.

19 junho 2005

A idade não perdoa

Ou melhor, perdoa. mas não esquece.